quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cena 2



Perco-me inesperadamente pelos corredores à luz de uma pedregosa chama de poesia. Mergulho nas palavras como se eu tivesse no pulso um relógio apressado ou houvesse uma chuva ansiosa para despencar céu abaixo. As palavras hesitam sobre a mesa, se coagulam, se desconjuntam, fecham-me as portas. A fluidez do sangue estanca. E por um desvio de qualquer natureza, atravesso o oceano insinuando-me através das ondas a lavrar um céu coalhado de hibiscos que se espalham por tendas e tapetes persas, exalando perfumes e fulgores perseverantes como o das palavras ainda há pouco anunciando um lento infiltrar-se de oxigênio nas minhas veias fatigadas. Entrego-me ao ritual das chamas. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cena 1



Ainda me chegam postais de uma história que ensaia os primeiros passos, mas dizem tanto das madrugadas que já não sei o que tem se passado pelo gargalo das noites mal dormidas. Lá, como aqui, maresia e poesia andam de mãos dadas, mas deixam um punhado de interrogações. Por isso, deixo a janela filtrar os raios de sol, abro as cortinas do presente para que esses fios à espera, pressentidos, não me tragam uma nostalgia que lembre Pessoa, Camilo, Nobre, numa harmonia de versos dor mentes ou de inaudita dor. Na memória das palavras o silêncio míngua na ânsia de vê-la, e vela a minha pena ao sonhar em doce balanço o desfolhar dos dias por meridianos que se põem do outro lado de tudo ao saber que a mutualidade das palavras foi a argamassa que aprisionou os sentidos, tornando-os cativos desta afeição.

(José Carlos Sant Anna)