sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Cena 7



aquela felina roeu os meus andrajos 
e soletrou entre as sombras da madrugada a palavra umbigo trocentas vezes antes de escovar 
os dentes com Kolynos. 
depois esticou o pescoço, como se fosse uma girafa, 
para ler o que eu escrevia no muro do que restou 
da nossa utopia, após os enganos 
dos nossos banquetes. 
como eu nunca soube que a loucura 
tivesse orgasmo, 
arrastei as fissuras do nosso caso 
para debaixo do tapete e, subitamente, 
bolerei num perfeito idioleto uma canção de tédio 
para as nuvens tensas 
que pairavam sobre a minha cabeça enquanto ela fugia levando o meu violão. 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 22 de agosto de 2015

Cena 6



São palavras ao acaso numa espécie de prosa gasta. Na corda bamba, no equilíbrio do simples ao indefinível, as imagens sensitivas se abrem em dilúvios. São digitais também as imagens da água e do fogo que engravidam a lua enquanto a tua epiderme lisa, numa interrogação muda, clama, tão perto e tão dentro de mim, o tempo inquieto, a lágrima pendular, a última golfada. Esgares, suplícios, angústias, sem auroras que despontem para um promissor amanhecer, me inquietam; seus estilhaços maculam a palavra poética e às apalpadelas amarfanho o papel em curto e rápido desassossego, diante do horizonte fechado em cinza, delineado pelas palavras que proíbem sutis farpas do frescor do sol. 

(José Carlos Sant Anna)



sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Cena 5



Leve espessura, fugaz, complacente. A música se dilui, o que me leva a escutar lençóis e fronhas em suaves ondulações, hálitos de brancura, enquanto as mãos e o olhar se tecem. Livre, abre-se ao meu corpo o teu palácio, as tuas tranças negras me envolvem como um sopro mais alto, águas que não se cansam, aromas de pedra, perfumes de cântaros resvalam tangíveis. Abandono-me em espirais brancas, voluptuosas, em todas as partes da morada do teu corpo, entranhas mudas impõem-me um flagelo pelos teus ermos, onde por fim vou saber existir nas comportas abertas onde o meu ser inteiro mede a si mesmo sem que a chuva passe nos rumores da língua. E ardendo, como uma lava em manchas de óleo, vou me queimando. Então, parte alguma de mim se intumesce incendiada pela tua corola, boca impetuosa. 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 9 de agosto de 2015

Cena 4



Escrevo nos teus olhos de luar o rumor dos insetos e da última estrela onde adormecem as nossas vidas. É tudo muito rápido. Poderia escrever outras palavras, outros sinais, antes que o dia se cruzasse com outras semeaduras, quando no meio da noite vens e dizes o quanto és doce, clareando o meu peito de menino, florescente, a dizer-me da urgência do amor, dos corpos enleados, depois destas lâmpadas acesas e das vespas que atiçam as carnes das palavras e do corpo que não suporta tanto calor, e do ardor da sede, desse tempo de voar, muito além de tudo, sentindo o teu lume no meu, sopro-a-sopro, e o sabor da tua água nas zonas mais incandescentes celebrando a fome desse sol interminável, desses corpos dissolvidos. 

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 1 de agosto de 2015

Cena 3



Para todo o sempre, é o que Marina diz para si mesma com o rosto encostado na vidraça da janela, enquanto a chuva se desembesta pela encosta do outro lado da rua. 
Há três dias que a chuva não dá trégua na cidade. Ilhada, como se encontra ali, agora, por conta da chuva, aproveita para se perguntar se ele a procurasse o que diria depois de tanto tempo esperando. Olhos nos olhos, a música de Chico não sai da sua cabeça quando pensa nessas bobagens dessa estrada poeirenta, ainda que literalmente a chuva não cesse de cair, entediando-a e convulsionando a cidade. Parece que o velho Pedro, muito ocupado com as coisas lá do céu, só agora ficou sabendo das suas tristezas e chora ininterruptamente há três dias, como se estivesse arrependido pela falta de solidariedade. E a Marina não falta vontade para dizer-lhe, do jeito que lhe for possível, que não há nada de novo para contar-lhe, que é tão pouca a sua alegria, mas vai vivendo sem perder um pôr-do-sol no porto da Barra, o velho porto da Barra, novinho em folha, depois da repaginada feita pelo pintor de rodapé, e diz ainda para si mesmo e, como se também o dissesse ao santo, que se a memória dói, é porque há lembranças, as cicatrizes ainda estão à flor da pele, mas só se fica sozinha nessa vida quando se quer. Pedro não esconde um sorriso. Ainda que não devesse, ela não esconde de ninguém que ainda tem a boca amarga, apesar dos anos que estão separados, porque, volta e meia, ele emerge nos seus sonhos com a sua boina e uma mala atulhada de roupas numa mão e, na outra, um cigarro que ele sai pitando pela porta entreaberta, do mesmo jeito que entrou. Ela não se conforma que tenha que conviver com esse fantasma, ouvindo os seus passos pelo corredor assoalhado da casa. Esconjura a chuva, mas, em passos lentos, se põe na rua trajando apenas um sobretudo sobre a roupa que veste, levando na mão uma Vuitton, único luxo que se permite, e vai andando pela tarde dispersando os hálitos da alma e, ao chegar ao primeiro cruzamento, aguarda do semáforo a luz verde para os pedestres; é a senha que precisava para tocar uma nova vida. Então, abre a bolsa e retira a sombrinha que estivera fechada durante a sua caminhada até o semáforo, e canta, e dança, e canta, e dança, sob os olhares atônitos dos passantes e motoristas, o clássico que foi imortalizado por Gene Kelly. 

(José Carlos Sant Anna)