quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Cena 10



Ao longe, as distantes avenidas percorridas ainda açulam a memória do último verão nas tardes do seu corpo de ninfa, com sabor de encantamento, até a chegada do crepúsculo e, como se fossem a sagração da primavera as tuas pétalas fascinadas com o rio que brotava do meu corpo ao teu, beijando-o ponto a ponto como um sol, do visível ao mais recôndito, pássaros na intimidade, caudal das nossas sedes, e palavras rasgando as dobras de um tempo derruído, antes que um beijo mais fundo pusesse em desalinho a loucura de mãos e bocas fulgurantes contornando a voragem do teu púbis ofegante. 


(José Carlos Sant Anna)



sábado, 12 de setembro de 2015

Cena 9


I

 “Vai nessa, meu broder, também vou aproveitar o seu sonho para fazer uma fezinha”.

    Puxou o lençol e, antes de dobrá-lo em quatro, utilizou-o para sacudir a poeira de cima da cama. Enquanto fazia isso, pensava nos ofícios do corpo, nos rituais do deitar-se para dormir para que o sono fosse o mais tranquilo e reparador possível. Depois se aproximou da janela fixando o olhar nas sombras das nuvens, sentindo o sangue correr pelas veias e, finalmente, foi deitar-se, convencido de que dormiria como uma pedra, em repouso absoluto.
      
       Não foi o que aconteceu. Ou foi?

    E nada de o sono chegar. Parecia que, sem qualquer aviso, ele se hospedara em outros aposentos. Então, Carlos rolou diversas vezes pela cama contando carneirinhos nas nuvens. Estes iam e vinham rapidamente, se atropelando e a tudo que iam encontrando pela frente, enquanto, outras vezes, cobriam o corpo dele com as suas lãs como se fossem tapetes.

    Não demorou muito e se acomodou em um deles e voou em direção à terra. Era um voo poderoso, só quebrado por mergulhos cortantes e lúcidas e famintas quedas por abismos.
      
       Vinha assim descendo a ladeira num trem sem roda, desgovernado, deixando-o atordoado sem saber se chegaria, com vida, a qualquer lugar que ele fosse.

   Parecia que estava sem freios aquele trem da noite, já beirando a madrugada. Na sua corrida louca, encontrou na primeira estação Seo Teteu, agora bem mais velho, mas ainda atrás de Maria. Aquela mesma Maria que o enchia de esperança quando entrava pelo meio da tarde na sua casa, aproveitando-se da ausência de sua mulher, dona Velha, que cuidava da outra casa em Maria Guarda, aquela ilhota quase desconhecida da Baía de Todos os Santos, deixando-o quase sempre sozinho por achá-lo já imprestável para tantas outras coisas.

    Todo mundo sabia o que Maria fazia quase todas as tardes na casa do velho porque ela mesma contava com riqueza de detalhes o quanto o deixava feliz, ao fazê-lo sentir um antigo calor entre as pernas. Fazia-o com desenvoltura e experiência de uma profissional. Parecia que tinha um manual de prazer nas mãos. Ia-lhe mostrando parcimoniosamente o corpo e ia apalpando o dele com maestria e leveza para que ele sentisse o calor das suas mãos em suas partes íntimas. Era o que bastava fazer-lhe para sair, dali, tendo nas mãos o rico dinheirinho da feira da semana, deixando o velho com a alma lavada e o corpo satisfeito. Todos na rua guardavam o segredo da felicidade do velho Teteu sem que a sua mulher – dona Velha –, desconfiasse do que acontecia enquanto ela estava cuidando da outra casa.

    Apesar do tácito acordo, quando alguém saía dos seus cuidados e dizia “que sem-vergonhice, Maria, bem esperta, está se aproveitando do velho direitinho, quando dona Velha voltar, vou contar-lhe tudo”, vinha logo outro e dizia “deixa a menina em paz, o que você tem com isso, são duas almas caridosas, estão numa troca de favores e, com esse dinheirinho, ela está garantindo o pão e a escola dos seus filhos”. E a conversa morria ali. Não se falava mais nisso por algum tempo.



    II
      
       Agora os profetas estão na igreja orando enquanto o trem segue o seu caminho sem fim, sobre os trilhos, mas sem as rodas, embasbacando Carlos, com aquele voo vertiginoso, sem saber se sonha enquanto dorme ou se delira com a insônia, mas sentia uma estação próxima, se fosse possível desceria porque estava assustado com a correria desenfreada.

    Um murmúrio aéreo já planava naquele mar íntimo quando a festa na casa de Dorminhoco terminou e a madrugada corria solta pela Rua da Jussara. Carlos ainda estava grudado em Cotoco, uma das netas de dona Velha e Seo Teteu, do outro lado da rua, quase em frente à sua casa, amassando-a como podia. Quanto mais ela fingia que tentava desvencilhar-se, dizendo-lhe que era tarde, afastando a sua mão boba, daqui e dali, mas ele a prendia entre as suas pernas e braços. Estavam nesse jogo, quando a luz da sala da sua casa, de repente, se acendeu. A porta se abriu e um vulto esgueirou-se porta fora.

    Cotoco prendeu a respiração e tentou disfarçar como se não tivesse acontecido nada. Mas Carlos não. Achou que seria a hora de se aproveitar para tirar um sarro da situação. Então, sussurrou no seu ouvido “você viu quem saiu da casa de sua tia? e a festa lá estava bem melhor do que essa aqui”. Provocante, Carlos acrescentou: “Acho que Antônio é amante de sua tia. Acho não, tenho certeza disso. Aposto que não é primeira vez que vocês saem para passear ou vão a uma festa, como a de hoje, e eles aproveitam para ficarem no bem-bom”. E quis levantar a sua saia.

    Carlos errou na dose porque ela amuou e não deixou mais que a sua mão se espraiasse pelo seu corpo, quis entrar logo em casa para que a sua tia soubesse que ela viu tudo. Também Carlos ficou sem saber se Cotoco encontrou sua tia na cama fingindo que dormia ou se a encontrou na cozinha, fagueira, tomando um café com o corpo ainda em brasa porque Cotoco pôs fim ao namoro, evitando encontrá-lo novamente.

    Pela manhã, quando levantou da cama, sua mãe perguntou-lhe porque não tinha chegado com a calça engomada. Ele respondeu que Antonio se interpôs no seu caminho e riu. E sua mãe fingiu que não entendeu nada, pois ela já sabia de tudo. Todos na rua sabiam. Quando a fome dos dois apertava, Antonio entrava pela janela do quarto da tia sem fazer barulho e, sem ruídos, se entregavam ao prazer da carne com as sobrinhas dormindo ao lado.

    Na rua, já corria a boca pequena que ele não fora o primeiro, que aquela janela sempre se abrira de madrugada. O irmão de Carlos fora um dos que pulara, embora ele jure de pés juntos que nunca atravessou os umbrais daquela janela.
   
    Quando a gravidez já não podia mais ser ocultada, Antônio já tinha mudado de endereço, fora para bem longe, já não se sabia o seu paradeiro havia muito tempo. O malandro a deixara com uma filha. Por outro lado, ela nunca mais abriria a janela de madrugada. O calor que a solteirona, como ela era conhecida, sentia em outros tempos parecia ter amainado com o nascimento da filha.

   III

       Mas todos sabem que a sombra é inevitável e começava um suor noturno como soturno era o trem resfolegando em plena madrugada. A próxima estação era logo ali, Carlos já pegava a sua sacola. O coração do trem estava histérico. No vagão restava apenas ele, que já se preparava para levantar quando entrou uma dama, formosa, sedutoramente vestida, bem parecia uma atriz do cinema americano. Ela vinha atravessando os vagões e se instala no de Carlos; depois de um desfile meneando o seu corpo e os cabelos, Carlos delira achando que aquele minuto já era uma eternidade.
   
    Como se não bastasse a música que vinha do corpo da dama, outra explode dentro do vagão. E ela começa uma dança, provocante, e dele se aproxima com requebros da cintura e meneios do corpo, deixando-o muito excitado; passa-lhe a mão no rosto, depois se enrosca no pole dance improvisado dentro do trem, roçando nele o seu clitóris. Sobe, desce e se contorce seguidas vezes. E geme. Aparecia na pele, no rosto, no corpo os laivos do gozo.

    Então, Carlos se lembra das confissões de adolescente de Lúcia G. que quase morreu atropelada roçando o dela no selim da bicicleta. Ela fazia isso todos os dias, contou-lhe depois, já adulta, mas, naquela manhã, parece que descobrira a posição exata para orgasmos sucessivos e só os interrompeu quando se estatelou no chão com a buzina de um carro nos seus ouvidos, os pneus cantando no chão de terra batida e os gritos do motorista, um senhor, perguntando-lhe se queria morrer.

    Refez-se do susto, apanhou a bicicleta, olhando fixamente para as escoriações da perna e correu para casa. Mas voltou ao prazer do selim no dia seguinte, agora numa rua mais recolhida, como lhe contou nas muitas sessões de intimidade, já adultos, que tiveram em tardes mornas na casa de praia da sua viuvez.

     Carlos deixa a memória divagar, mas não perde os movimentos da artista, que está cada vez mais próxima dele, puxando-o para si e arrastando-o para o piso do vagão. Agora eles resfolegam como o trem e se embaraçam nas próprias pernas e os sacolejos do trem ajudam no vaivém dos corpos. E ele lhe diz no ouvido “Demi” e ela diz “não, toda, nada de metade, toda, toda, meu gostoso”. E ele, Demi, non plus, e ela, “não, nada de metade, toda, meu  menino, não para, não para.”

    Acorda com movimentos de vaivém na cama, vira para o outro lado e dorme. Pela manhã, não pode deixar de lembrar-se de sua mãe quando descobre o tamanho da mancha na cueca.

    Saiu sem tomar café e foi direto para a sala de Jorge, mestre no jogo do bicho, contando-lhe em pormenores os sonhos. Ele ouve em silêncio e, depois de um tempo, faz a interpretação, atribuindo-lhe os animais e passando-lhe primeiro as três dezenas e, em seguida, os milhares. 


José Carlos Sant Anna

sábado, 5 de setembro de 2015

Cena 8


I

eu não sei bem em que, 
eu já disse

por aquilo 
que já me outorgara 
esse material 
afetivo, 

eu não sei bem em que 
e ponto final. 


II

mas, talvez, talvez 
– quem sabe?

é o meu modo de falar 
aqui deste púlpito, 

esta breve homilia, 

[o papa Francisco ficaria com inveja]

para dissecar
uma vida simples, 
cheia de equívocos, 

Por certo, deixá-lo-ia de queixo caído, 

sem pausa ou vírgula, 
entre as proposições 
de um catecismo
voluptuoso 

e depois
eu só posso aceitar com resignação 
que o engov esquecido na lapela
do meu casaco

seja um armistício 
entre o meu corpo e a tua sede, 


porque sem o malte gelado
as nossas opacas línguas 
são um passatempo 

no arraial

que margeia as ondas 
de volúpias 
nas curvas do teu corpo 

ao ver-te passar 
na orgia dos meus olhos, 
onde outras virgens 
em lânguido murmúrio, 
abraçadas ao travesseiro, 

clamam, 

[como já clamaram
outras tantas vezes],

em incógnita dúvida, 
o húmus fatal. 


III

eu não sei bem em que, 
eu já disse, 

mas aquele rapto 
cinematográfico 
feito na sombra da madrugada 
fora 
o mais bem planejado 
que eu já vira. 

e, sem nenhuma urdidura, 
a trama 
se fez aos pés das palmas da plateia 
e sob as palavras

[as minhas, sem dúvida]

que se desatavam 
como se os meus membros 
ainda fossem livres, 

mas não voavam, 
embora cantassem sem cessar
a melodia do gozo. 

pois é assim, 
há dias sem sol

é quando inventamos 
novos paradigmas 
no ofício secular 
para a nudez dos corpos, 

para as margens dos dias, 
e as madrugadas de prosa gasta, 
que nem mesmo as pétalas digitais 
pousam no paraíso, 

adiando a minha voracidade canina. 


IV
eu não sei bem 
o porquê, 

mas  ainda é bem vívido
o beijo da mulher 
feita ao amanhecer do dia. 

a vida é assim 
passo a passo 
num vaivém

de rezas vestidas de sombras 
e de sol 

para que a conheçam 
por dentro 
em silencioso desassossego.

(José Carlos Sant Anna)