quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cena 14


As amoras
ciosas     incomuns
mostram um raro bom senso
quando me trazem nos seus lábios
o gosto maduro do seu fruto.

Mas eu    inquieto amador
não tive o mesmo bom senso
ao revelar
o segredo das amoras
e dos seus lábios em insólito poema.

Agora as amoras
tensas 
sombrias
                       pairam
acima das nuvens
com essa revelação
que se espalhou por toda parte. 

José Carlos Sant Anna

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cena 13

Para Joelma Bittencourt

As amoras,
para a minha surpresa,
amadureceram
de ontem para hoje.

Entre um silêncio e outro,
elas atravessaram os umbrais
da adolescência
e sufragaram o teu corpo,
lambuzando-o
com uma tal doçura,

que uma loucura me acode,
apesar da lonjura,
bem perto da cintura
sobre a linha do mar.

Sinto
a maciez da polpa das amoras
nos meus dedos
ou é a maciez do teu corpo
recostada na tarde de prazer? 

Alarga esta tarde,
vai,
te suplico, te imploro!
me ligo ao teu corpo
por essa ardência, essa sede;

me envolvo nas amoras
da tua lira,
me afogo na tua chama,
que me chama e me inspira.

São tuas
as minhas amoras
queimando
neste fogo de ervas
na claridade da tua lira?

Ou são tuas
a permanência clara
deste amador
banhando-se nas águas
das palavras 
do corpo luminoso do teu poema? 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Cena 12


Uma linha no fundo da agulha
cerzindo uma chuva miúda
em obstinado silêncio

vasculha 
as ausências traspassadas
no sonâmbulo dedo
que vagueia pelo alçapão da memória

Ocultando consigo
as teias dos naufrágios da linha
pouco a pouco engolfa 
no equilíbrio do fundo o tecido
de cetim negro

ziguezagueante agulha
na imersão da linha desenha
formas de diagramas da vida.

Enternecida a linha tolda a vista.


                  (José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Cena 11

foto capturada na internet
Essa migração
é uma dor que dilacera
névoa tangente, pedra dura
até chegar ao nada

nos corpos desavivados, nos lábios ressequidos
línguas que violam a  dor

fome afogada

ao sabor da água como se fosse alimento
os corpos nela espalhados

no licor do esquecimento 
são uma lição escatológica da vida 
em si mesma mitigada. 

         (José Carlos Sant Anna)