terça-feira, 24 de novembro de 2015

Parábola do Gelo



Me acordei, pulei da cama e abri a janela descerrando as cortinas. O sol entrou fulgurante. Recebi aquela baforada de ar quente pelo meu peito, respirei o ar puro da manhã e entrei no banheiro para a minha higiene matinal. Em seguida, pus a roupa de ginástica, passei pela cozinha, bebi um suco de amoras, natural, coloquei um gorro para proteger a cabeça do sol, passei filtro solar no rosto, braços e pernas, e desci para a caminhada habitual.
Ao chegar ao portão do prédio onde moro, levei um susto. Apesar do sol inclemente, o passeio e a rua, como se tivesse nevado a noite inteira, estavam tomados de gelo. Fiquei intrigado. Como aquele gelo todo teria se formado, se a temperatura beirou a casa dos 35 graus durante toda a noite? Como, se habitualmente, neste período, a temperatura nunca é inferior a 30 graus, tal fenômeno seria possível? Alguma coisa estava fora da ordem, foi o que pensei. O zelador me trouxe a mangueira do jardim do condomínio e uma pá e cuidei de desobstruir a passagem dos meus passos e das minhas palavras. 
Uma vez desobstruídos, passeio e rua, com o gelo escoando pela rede pluvial, olhei para o infinito como se ele pudesse explicar-me alguma coisa e, como não obtive resposta, deixei-me perder, achando-me do outro lado, no sul do país, pelas bandas de outra cidade, desconhecida, com as vistas, saudosas, alcançando uma rua, que, curiosamente, estava também pejada de gelo, embora não houvesse explicação, aqui, como lá, para o incomum fenômeno.
Eu não poderia fazer nada, absolutamente nada, àquela distância, senão esperar que a moça do outro lado desobstruísse a passagem dos seus passos e das suas palavras, removendo o gelo tal como eu já o fizera na minha calçada. 

Resta-me agora esperar que ela o tenha feito. 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de novembro de 2015

Cena 15



Agora estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda que não o negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim. O que faço, então? Visto-as sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido porque não quero gastá-los e, quase sempre, o faço em dia de festa quando os meus pés ruidosamente os acolhem com meias de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho. 

Ah! E a areia! As andanças! A corda de enforcado! Como eu não queria este devaneio agora, esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, sim, escancarada mas ensolarada, como o diabo gosta. A promessa de espuma alvíssima, o mar batendo na amurada do cais, a leve impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros do navio na baía onde se lê Mar del Plata, e a bandeira azul e branca, de los hermanos, tremulando no mastro, os fictícios tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela, a noite passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos  passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce. 

                          (José Carlos Sant Anna)