quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Rito de passagem


Últimos sinais na janela indiscreta
milhares testemunham à beira-mar
                              o rito de passagem
simbolicamente do velho para o novo

Despe-se inteiramente o velho?
Despojam-se dos galhos e ramos
as folhas secas abortando 
o derradeiro espinho das suas vestes?

Já não sangra a sua pele
já não sangra, e o caule verga,
entre tantas outras coisas,
sob o peso da lava-jato et caterva
faltando-lhe o oxigênio para as insolvências
que transbordam na secura do Cantareira

Ochampagne passado de mão em mão
evapora-se antes de beijar os meus lábios,
Finco as primeiras raízes do renascimento

Como saber o que cabe na esperança
dessa pátria pálida, envergonhada,
no fundo do seu nervo ótico?

Quanto deste sal estará evaporado
quando tiver passado a ressaca do réveillon?


                        José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

D. Maria


 OI, MULHER, POR ONDE você andava? Estava sentindo a sua falta, sabia? Você está tão bonita!...
    Lua recuou ligeiramente quando aquela senhora lhe dirigiu a palavra com um sorriso que ia de um canto ao outro da boca, dizendo-lhe palavras amáveis, carinhosas. Em seguida, ela recobrou a fidalguia e o domínio da situação e lhe respondeu também com um largo sorriso, que se espalhou por todo seu rosto.
    A verdade é que se não ela reagisse dessa maneira não seria a Lua, que todos nós conhecemos. Assim, ela retribuiu a candura das palavras, sim senhor, a candura das palavras da sua interlocutora:
    – Estou por aí, mulher, você é que anda sumida. Volta e meia, eu passo pela tua praça. Sempre vejo você por lá, distraída, tricotando a vida e as suas roupas...
    Ainda enigmáticas, entreolharam-se por alguns instantes e cada uma seguiu para onde a vida as levava naquele instante.
    Lua iria comprar umas frutas no mercadinho mais próximo. E, pelo jeito, D. Maria estava indo para o seu território, munida das suas inseparáveis sacolas, pois ali também estava o seu manual de sobrevivência. Nelas carregava uns paninhos de crochê que ela saía vendendo aos transeuntes pelas redondezas antes que a esquizofrenia, de súbito, pela falta dos remédios, a atacasse, deixando-a aparentemente como se não tivesse o juízo perfeito.
    Portanto, eu dizia que Lua estava indo às compras, para a sobrevivência da semana, pois morava sozinha. Desde que perdeu os pais, mora sozinha num amplo apartamento, sob as bênçãos da praça de D. Maria.
    Pois é isso mesmo que acabaram de me ouvir dizer. As duas são vizinhas, separadas apenas por uma rua, entre o prédio em que Lua mora e a praça, arborizada, fresquinha, que amanhece com as secretárias do lar e, por vezes, as próprias madames, com os seus cães, cumprindo o ritual das matinais necessidades deles.
    Nesta hora, é bom que todos saibam, D. Maria ainda não ocupou o seu território. Ela mora na Praça, mas não dorme na Praça. Ela tem uma família também, é o que todos supõem ou imaginam.
    E, além disso, porque são vizinhas é natural que se conheçam, que nos cumprimentos que trocam entre si não faltem calor humano, intimidade e bonomia, inata aos vizinhos que se acolhem e se respeitam. E se amam, por que não?
    Por certo, Lua estranhou num primeiro momento o modo tão amigável, tão íntimo, tão familiar do cumprimento de D. Maria. E tanto estranhou que se apressou a contar para o grupo família do WhatsApp, como algo incomum.
    – Ei, gente, vocês não sabem o que me aconteceu agora?
    Escreveu esta mensagem e aguardou a curiosidade de sua turma, pois, como os conhecia, e bem, sabia que viria uma pá de perguntas querendo saber o que houve. E imaginava o que cada um diria da situação inopinada para ela. Claro que não era assim que D. Maria encarava a situação. Inopinada, ora vejam só, é cada coisa que se ouve. Para ela, não havia nada de extraordinário. Anormais são os outros que não passam o dia inteiro recolhida numa praça, olhando o vazio ou contando estrelas à luz do sol. Anormais são os que se banham todos os dias. 
    Não seria isto o que pensa D. Maria?
    – Oi, tia, conte logo... (uma das sobrinhas).
    – Lua, não me diga que você encontrou o Brad Pitt boiando e ele te chamou para jantar, foi, sortuda? Conte logo... (outra sobrinha, de língua mais afiada, mais descontraída).
    – Diga, minha irmã, não temos poderes divinatórios, conte logo, a mulher das “histórias” para a família é você... (uma das irmãs, cheia de verve, de ironia).
    – Vai, minha irmã, conte logo, a gente não pode ficar a tarde inteira esperando por essa notícia... (a outra irmã, fingindo formalidade).
    E ela contou o modo amistoso com que D. Maria a cumprimentou revelando o tom de intimidade que ela imprimiu às suas palavras, como se ambas, lídimas vizinhas de um bairro chique da zona sul da cidade, tivessem os mesmos anseios, as mesmas preocupações e até mesmo a perspectiva de amores semelhantes. 
    Retomaram o diálogo no WhatsApp com um naipe de gracinhas, pipocando os risos de um lado e do outro, enquanto D. Maria já ocupava o seu lugar na praça, discursando como em geral ela ficava na praça.
    Quando tal acontecia, dizia-se que ela estava "atacada".
    Ela nunca saberia que, longe da ali, era objeto de tantas especulações e gracejos. Todos bem humorados, é verdade, pois não se pode esconder a boa formação da galera, ainda assim zombeteiros e discriminatórios, por que não dizer? 
    Ainda que soubesse que a espontaneidade de minutos antes  estava sendo motivo de tanta graça entre eles, ela não compreenderia as razões. Por certo, manifestaria a mesma estranheza de quando é surpreendida por um carro à sua frente, assustando-a. Quando tal acontece, ela reage fulminando com o olhar o motorista que a tirou das suas elucubrações.
    Quantas vezes eu ouvi seus impropérios ao entrar na garagem do prédio onde moro, quando ela queria passar pelo passeio em frente ao portão?

(José Carlos Sant Anna)





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A dançarina



Por onde anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
nos lábios acesos e no ar compungido 
o melífluo jeitinho de corça 
me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes revelavam
o desejo ainda entranhado na sua pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar este rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Postigo para o mar


INCÓLUME, A ÁGUA do mar ia subindo, subindo, densa como o sangue correndo pelas veias, a fazer naturalmente o seu caminho entre as palafitas. Depois de lavado o assoalho da casa, a maré refluía do mesmo jeito que chegara, fazendo o caminho de volta, quando deixava a dona da casa atônita. Era sempre assim que ela ficava, depois da enchente, atordoada, sentindo o peso da sua impotência, diante da força da natureza. Já não sabia o que fazer... E a maré, pouco a pouco, fazia o seu caminho de volta, recolhendo-se ao fundo do oceano em gesto largo, generoso, com as palafitas do manguezal da cidade baixa.  
Lentamente a água refluía. Aos poucos. Devagar. Era o ritual da lua cheia com o qual aquela mulher já se habituara. Durante três dias, era quanto durava a presença da maré na sua casa, ela cuidava de não deixar resíduos da sua passagem, recolhendo os detritos ou dejetos, trazidos pela água do mar e deixados nos aposentos da casa, embora fosse raro que tal não acontecesse alguma vez. Sempre restava algo para ser expurgado.
Quando a lua era crescente, ela se cercava de todos os cuidados, mantendo a casa fechada para evitar qualquer dissabor, pois a maré trazia toda sorte de lixo. De fezes humanas, que os palafiteiros evacuavam sobre o mar, das suas latrinas improvisadas, aos animais mortos, como pombos, cachorros, galinhas e outros, arrastados pela força da água. Com as portas fechadas a água entrava por debaixo da porta, da frente e da cozinha, mas o fazia, sobretudo, pelas frinchas entre as tábuas do assoalho, rompendo aquelas ranhuras com a sua força descomunal, silenciosa.
Expurgadas as promessas, os remorsos e as culpas, a vassoura cumpria o resto do que tinha de ser feito após a passagem da maré. A de março era, para aquela senhora, sempre a mais dolorosa durante o ano, pois subia com mais intensidade e mais força do que a dos outros meses do ano.
Baixado o nível da água, ficava atrás de si um cheiro nauseabundo de maresia, impregnado em tudo dentro da casa. Quando a lua começava a minguar, acabava o sofrimento dela. Essa dor mensal, como uma menstruação, que lembrava os tempos de menina-moça, em geral, durava três dias, no calendário em que ela dava baixa, mês a mês, ano a ano, das suas purgações.
 O assoalho não via mais a cor da água cinzenta que o beijava incessantemente para o desespero da dona da casa. "Um ritual", ela repetia para si mesma, resignadamente. Sabia que seriam sete anos. Nunca disse aos filhos como soubera que a purgação levaria sete anos, longos sete anos. Nas redondezas era a única palafita que recebia aquele batismo a cada mês do ano.
Aquele lote de água, ela o recebera de outro invasor, sim porque era um lote de água o que ela dispunha agora, mas sairia daquele beco imundo onde morava com os cinco filhos e porque eram todos invasores, nas redondezas. Ninguém era dono de nada ali, naquele pedaço de mar, entre os manguezais. A mulher ficava esperando a água refluir completamente para que alguém, entre os seus, avistasse os piquetes que demarcavam o seu terreno, a sua área, a sua água, onde surgiria a sua futura casa. 
Se a maré estava cheia, chegava àquela marcação com um bote que ficava à margem, à beira do mangue, disponibilizado pelos antigos moradores das palafitas, se estava vazia, seguia cuidadosamente por uma vereda ou outra, pelos restos de mar deixados pelos caminhos, pelas poças, para não enterrar as pernas até os joelhos nas partes mais moles do terreno. Havia sempre pequenos pântanos pelos caminhos. Enquanto não nascia a sua "edificação" de madeira, ela precisava peregrinar pelas águas como um Moisés, quase todos os dias, para tomar conta do seu "lote", não deixando que nenhum outro aventureiro dele se apossasse. 
Era um lote de água, com os piquetes submersos, que recebera num dia de Ação de Graças daquele indivíduo. Estavam submersos porque a altura deles era inferior à altura que água subia regularmente. Dera-lhe o lote, ninguém sabe em que circunstâncias com as marcações dos piquetes, um invasor, ilustre desconhecido da sua família. Poderia construir três casas na área demarcada, se tivesse recursos. Não os tinha para tanto, cedeu, para um vizinho do beco imundo onde morava, uma parte das suas águas, e a outra parte fora invadida por um morador antigo das redondezas, que há muito estava de olho naquele "terreno", embora já tivesse uma casa em outra rua das palafitas.
Ali, ela fizera a casa com os restos de madeira e lona, e os mourões que comprara para a sustentação da base. Ninguém sabe como juntara, da noite para o dia, aqueles trapos para armar sua casa sobre as águas. Quem a construíra, nada sabia da maré naquele pedaço do mangue da cidade baixa. Logo, a casa foi construída sem se levar em conta a altura que a maré chegava àquela parte do mar.
Assim, amargaria por sete anos a lavagem da casa pelas águas de Iemanjá, talvez já não se lembrasse de alguma promessa que tivesse feito para a Rainha do Mar. Como a deixou de cumprir, pagava, por certo, pela promessa não cumprida. Cumpria a sua pena, carregava a sua cruz, dizia para si mesma a todo instante quando as coisas desandavam. E ia tocando a vida sem deixar de acenar uma única vez para a esperança.

(José Carlos Sant Anna)