quarta-feira, 27 de abril de 2016

Strauss não teve culpa



Embora os lençóis estivessem gastos, de tão lavados, quando acabou o queijo e o vinho, ele se levantou do sofá-cama, apanhou uma muda de roupa e disse-lhe que só voltaria na quinta-feira seguinte. Fê-lo como um pássaro triste, de cabeça baixa, antes de fechar a porta do elevador, olhando-a na simplicidade do silêncio dos seus olhos e, na certeza de que ela não procuraria o analista para falar-lhe do personagem que ele estava encarnando naquele exato momento ou para tão somente dizer-lhe que não queria perdê-lo, ainda que já tivesse perdido a chave-mestra ao perceber a tensão dos seus maxilares, parecendo entendê-los melhor agora sem a goma de mascar de uso constante, e o ruído dos primeiros bares na luz crua da imensa solidão que os constrangia no exíguo espaço que separava uma porta da outra em tudo aquilo que ainda poderia ter sido.
Ela retribui o olhar na absurda fome que ainda a consome depois da cena. E, enquanto disseca as curtas palavras que ele lhe diz, faz um gesto amplo e depois repousa a palma da mão na carne frágil do seu colo. Escorre um ruído quente, febril, pelo corredor. Talvez um termômetro mostrasse os nervos da mulher nua, o sono líquido boiando entre a carne e a dor da separação momentânea, como ela supõe.
Momentânea? Há de se saber depois se o luar ainda estiver os ouvindo à beira-rio na memória afetiva de ambos. Ele repete para si mesmo como uma lembrança inesquecível, por outras razões, a palavra momentânea, enquanto o elevador desce levando apenas um corpo apunhalado, porém sem manchas visíveis de sangue. O ar seco alivia o estranho sentimento quando ele diz para aquele claustro que se arrasta entre as quatro paredes em que se move o elevador:
– Você está me vendo? Eu estou aqui, bem aqui. A barba por fazer e, mesmo assim, mantenho essa pose. Sei que sou um escroto, e daí?
O espelho do elevador devolve sem máculas o duplo de olhar carrancudo. E, enquanto a fumaça sobe do cigarro, ele vai para baixo com uma facilidade, mas sem enaltecer o rio que um dia fertilizou, precocemente, é bom dizê-lo, o doce amor que ambos sentiam. Vai descendo, descendo, e pensando que só queria dizer isto. É o começo do fim. Ou melhor, houve um começo, agora é o fim. Ele recolhe as ideias enquanto a sua antiga Ofélia flutua encobrindo a dor e a notícia que ainda não tem pernas, mantendo a porta do elevador aberta para que o odor da nicotina, o mais rapidamente,  se evapore, apagando as baforadas nervosas ali deixadas.
Como não era de praxe fazê-lo, o tabelião não foi mesmo chamado a intervir para as notas cartoriais do que poderia ter sido um enlace, apostando-se agora que o tempo se encarregaria do remédio para o sonho que se vai, enquanto Strauss, que é do tempo da rolha, na garrafa de Coca-Cola, e da celebração com valsas, pega a sua casaca e embarca para tocar em outra freguesia. O homem não tem porto e a valsa não tem pressa, com a permissão de Lamartine, o poeta francês, por essa adaptação canhestra. 


(José Carlos Sant Anna)




segunda-feira, 18 de abril de 2016

Do diário de Tão Preto




Depois de ter recolhido todas as âncoras do fundo do mar, naveguei em silenciosa eloquência, distraído, mas sem traçar limites para o que fosse rotulado de ilimitado nas hostes desse veleiro intransitivo. E, uma vez que sou um transeunte insistente dessa vida provisória, esforço-me para esquecer as lacunas invisíveis que se acumulam numa escala de cores ao longo da existência. Um voo solitário na fímbria da noite. Talvez esperasse encontrar um pouso, um novo porto, para ancorar meus apetrechos de viagem, depois de uma longa caminhada sopesando as tormentas, as mágoas que sangram, as partilhas dos fardos, mas sem descurar as vistas dos pontos cardeais da vida ardente em espiral. Com os olhos baços, perscruto a correnteza de outros náufragos em carne viva e ouço uma turba avaliando a ausência de berço, as folhas mortas que não caem inutilmente. As lágrimas que inundam o rosto das minhas angústias diante das incertezas, vindas pelos carreiros em seus comboios. Eis que distante me acena uma nesga, um fiapo, uma labareda. Com um quê sorrateiro, uma moça me espia de longe, ardente de si, e sem fazer segredo do seu código genético, transmite uma mensagem cúmplice através do riso que se espraia e me alcança. Renascem antigas palavras. Alteando a cabeça, exala num suspiro uma canção, sem cifras na sua linguagem. O mundo que vejo agora já não é o antes imaginado. Desembarco levado pelo impulso de ir mais além dessas bandeiras. Em meio ao caminho há um sonho e uma canção que iluminam uma floração de ipês instigando o viajante a vigiar os grilos na nascente noite.



(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Metaplágio para a poesia de Adilia Lopes

                         Wassily Kandinsky - Improvisation, 27


                                         (Dedicado à poeta Joelma B.)

Depois de ler a poesia
de Adília Lopes evito escrever
porque lendo-a na horizontal
vorazmente descubro que não sei
inventar coisa alguma de nada
não está na minha pele esta vocação
mas Adília me leva a escutar
as ondulações minuciosas
do biscoito Maria
saboreando-o nas grutas
onde se escondem as cartas de Mariana
talvez escreva ainda
em torno das palavras os tumultos
que me causaram o teu nome
quando um relâmpago iluminou
o sopro desesperado
do teu olhar cúmplice mas havia
um rumor de água no telefone
e essa dilatação das minhas veias
somente cessou depois que as membranas
na limpidez da tua voz se acalmaram
ou a nudez do silêncio se fez
sem o cálice de Adília.

(José Carlos Sant Anna)