terça-feira, 26 de julho de 2016

Não sei onde as cinzas azuis




Em vão, tento
e sou levado por uma fome antiga,
movediça, que me devora,
a abrir o alçapão da febre
gritando sem boca à gente sem pão
e como se eu vivesse só comigo
escrevo à moda de Tão Preto 
pensando, olhos ao chão, 
na poesia de Adília Lopes.
Depois de uma voraz mordida
num croissant de queijo
como se fossem as tuas carnes tenras, 
Margarida,
olho para a tua minissaia,
   – que o vento me trouxe –,
econômica em matéria de pano,
   – já que eu sei do resto –,
e, sem rasurar a paisagem,
devolvo o croissant disfarçadamente 
à cesta de pães 
e pisco os olhos para Maria que,
ao sol a cantar, 
me escreve um epigrama. 


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ternura breve






Mal disfarçava, na sua altivez,
o remorso nas asas fechadas.

E, como se fossem dedos iguais,
a solidão se tornara visível
nos olhos úmidos.

Agora, com as trevas iluminadas,
ao apalpar o vento nos ciprestes,
ao lutar sozinho nas ruas desertas,

faminto de estrelas e de sonhos,
o morcego desiludido esquece 
o telefone da lua.

E os seus olhos desvelam
névoas, como estrelas apagadas,

Como também se recusam 
olhar de novo os céus depois 
de uma noite sem sangue.

Pesaroso, chafurda nas lágrimas 
do mundo que deixam 
no seu coração vagabundo 

o avesso da sombra e dos sobrados
na crispação de uma doce melancolia.
  
(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 12 de julho de 2016

Um clara chama sobre as águas



Julgava perdida a morte
que dançava sobre seus cabelos,
cinza última,
um sopro de perfume da adolescência,
e sem que soubesse da maçã
o gosto

Adormeceu sem ouvir o respirar,
o rumor das bocas nas palavras,
avesso da passagem do ar,
nudez matricial,
águas que não se cansavam do cântaro
iluminado

Esperava,  a voz perdida,
a iminência do vento que respirava,
corpo vaporoso, última morada,
um inseto, o vaivém da folha
e um amor que se dissesse leve,
sem rastro

Finou-se com as águas afogando,
soltas, fosforescentes,
sob a luz da pele nos ossos,
que as hastes do efêmero trouxeram
sugando o seio desnudo do estio
perdido.


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 5 de julho de 2016

Cena 46



Um tiro no escuro. 

Nas mãos 
um taco de linhas 
curvas 
para sinuosas tacadas 

e o ofício penoso 
de enfileirar, uma a uma, 
as bolas na boca da caçapa, 

endireitando-as 
para que, 
em ondas de volúpia, 
deslizem sobre o pano verde 
em êxtase 

dardejando ávidas 
entre a luz e a sombra 

como um beijo roubado 
em areias tórridas 

ou 
como corpos 
em vertiginosos fios de luz 

ou
acolhendo 
a imprecisão das palavras, 
fluidas, 
náufragas, 

crepitando em ondas 
como se um oceano fossem 
e que 

alforriassem a identidade 
dos dias 
desencontrados 

antes de engolfar 
em madrugada cúmplice
o teu Mimo de Vênus. 

(José Carlos Sant Anna)