terça-feira, 13 de setembro de 2016

Olívia

                                                                                           Asilo na ótica de Van Goh (1853-1890)

A minha voz já não te chama neste acaso de pedras e flores. Um dia voltarás?
Uma bruma se derramou pelos dedos de Olívia, levando-a a perder o fio da meada depois que depositou o telefone no gancho e arregalou os olhos para as pálpebras da terra. Depois de um longo silêncio, para o espanto de todos, se pergunta: “Não serás tu dentro de mim?” Depois, abatida, se fecha por horas seguidas. Parece que nada mais ilumina o seu coração. Ninguém consegue trazê-la de volta à realidade, ainda que houvesse um sol radioso alegrando tudo à sua volta. Também nada se sabe do que disse o interlocutor do outro lado da linha ao ouvir a sua voz. Sabe-se apenas que, com mãos de tenaz, um frio a domina. Olívia fica cismando com o olhar pasmo nos descaminhos dos sonhos despidos.
        E, embora tenha muita fome, Olívia está sem apetite, com o coração mudo, desarranjado, nu, diante de um espelho, e, como um trem descarrilado, sem ninguém a vê-lo, caído pelas margens do caminho, apunhalada por mãos de vidro. Ninguém é capaz de reconduzi-lo aos trilhos para que ela volte a si mesma, saindo do mutismo em que mergulhou, a prendê-la no quarto, ou em falas descontínuas pelos corredores, ilhando-a, depois do diálogo guardado nos escaninhos desarrumados de sua memória.
         “Se eu pudesse, ah! Se eu pudesse!” – diz para si mesmo aquele bom ouvinte ali sentado, ao lado dela, no banco do jardim florido da casa em que hoje passa os seus dias... Pensando na salvação do mundo sob um sombreiro, debaixo daquele sol, pensando no pássaro sonâmbulo a partilhar o banco do jardim da casa.
Sei que ele faria qualquer coisa para ajudá-la, percebia pelo seu olhar emudecido diante da solidão impaciente ao seu lado.
Ela, sem mistérios, o tomou para si, como já o fizera com outros, sem que ele esperasse por aquele gesto melancólico, sem esconder o espanto que tomava o corpo dentro dele. Agora, é ele que faz das tripas coração e lhe diz quase numa prece “vamos viver”, diz, nos limites da sua força, procurando ajudar a quebrar as amarras dos seus tornozelos. São elas que a impedem de voar, aduzindo-lhe que a cadeira de mágoas foi para a oficina de quebrados e, quem sabe, se ela não arejasse a cabeça inventando uma flor para os seus cabelos, ou uma primavera para a sua vida, talvez não voltasse nunca mais. Ainda que esteja quebrada, ela ainda faz sentido, tem a sua história, ainda cabe no universo. Debaixo de uma cadeira quebrada há sempre outra. O que importa é que há sempre duas realidades à nossa frente. Importante é que saibamos cortejá-las... Como se uma não fosse ruína da outra.
         Ela não o ouve e diz-lhe que voltou a desenhar meninos jogando bola como os via na praça velha da sua infância. Diz-lhe também que depois de desenhá-los caminhava pela enseada a tomar sorvete de mãos dadas com as dores e as alegrias como se lhes fossem íntimas.  E vai-lhe dizendo coisas sem parar como se as tirasse de dentro das pedras.
         Enquanto caminhava, diz-lhe, cheia de mesuras, desenhando flores no ar ou tricotando uma joia para uma festa, coisa que ela ainda não sabe se, um dia, acontecerá, tudo o que o coração manda, sem remorsos. Diz-lhe roçando as pontas dos seus dedos que não sentia o mundo a girar como agora. 
        Nas palavras entrecortadas não faltavam labirintos para que ambos não sentissem a passagem do tempo... 
         Inundava-o com histórias, repassando os delírios da infância, recompondo um passado que não se esvaía, ainda que ela desenhasse e apagasse imediatamente enquanto os reinventava como uma Sherazade para fazer perdurar o tempo. 
         Diz-lhe como uma bebida em chama que estavam no jardim da infância e fala da merendeira como se falasse do amor ao morder a maçã que levava para a escola, da fita que amarrava ao cabelo, tudo um aprendizado naquela fase da adolescência, sempre se soube uma princesa, ainda que a sua mãe não o dissesse.
         Diz-lhe que adora subir a escada, que tudo é uma fluidez se multiplicando, que parece ouvir os seus pensamentos, que não se afaste tanto porque o mundo fica desigual sem a sua presença, diz-lhe que não corra mesmo que as suas miudezas não o agradem e que ele invente também algumas para aquele momento. 
         Chove encantamento no jeito de explicar as coisas da mãe, no jeito de dizer que queria uma casa só dela, ainda que não tivesse jabuticabeiras, ainda que a chuva inundasse a rua e os seus sonhos... E acrescentava que a chuva limpava a sujeira que a vida trouxesse para dentro de cada um.
         Diz-lhe que não se incomoda pensar absurdos, incita-lhe o braço todo arrepiado, impele-o a roçar a sua pele, aqueles pelos eriçados como se ela estivesse  sentindo frio...  Mas o sentia. Era um frio interior, lá dentro de si, que não sabia explicar.
         Depois ela lhe diz que é cedo ao perceber o impulso dele... Diz-lhe novamente que gosta da fluidez dos seus pensamentos... Que sabia o quanto havia de ternura e luas escondidas dentro dele. Pergunta-lhe se ainda penteia as águas da baía com flores do campo...
Ainda tinha tanta coisa para dizer-lhe sem dar-se conta do tempo escoando por entre os seus dedos e suas histórias, quando o médico plantonista entra com o telefone nas mãos, atendendo-o, no jardim da Casa onde Olívia repousa sob cuidados médicos, ainda sem calendário... Criando mundos, ordenando pedras e, no seu canto de seda inquieta, não havia limites.
         É aquele um gesto instintivo do médico, por isso ele não percebe que Olívia emudece de repente, levanta-se e caminha em direção ao quarto. É nele que prolonga o silêncio e ouve o murmúrio das constelações com os cabelos desfeitos nas manhãs de sol pouco duradouro e na leveza das andorinhas náufragas de céu.
    
(José Carlos Sant Anna)


sábado, 3 de setembro de 2016

Chico na janela espiando a vida

Brincadeiras infantis - foto Marcos Santos - Imagens USP - SP

Alumbramento. No amarelo e preto em exposição no pedaço de madeira ovalado da goiabeira, as listras horizontais do time de futebol de seu pai  "Meu amarelo e preto, meu time do peito, meu velho Ypiranga" , Chico zune o pião no ar e o sustém na palma da mão. Sentindo-se vivo novamente, ri como se imitasse a alegria das árvores e do vento, enquanto o pião gira sobre si mesmo e dorme entre as suas falanges, acrobaticamente. Com os olhos bem abertos, Chico, parado a pensar, ouve em seguida os murmúrios do brinquedo rodopiando pelo braço e antebraço, recusando-se, enquanto o bicho perde a força, a se fixar na realidade secundária da criação daquele objeto que circunavega as pupilas dos seus olhos. Afinal, quem criou o pião? Aquele, pelas cores, um presente do seu pai. O que eu sei é que Chico Bobina, como um experiente caixeiro-viajante, "um beduíno, com ouvido de mercador", desembarca do porão do seu navio, enfeita de mistério aquele pião e sai rompendo a solidão das bandeiras dos navios-piratas. Parece disposto a cumprir o seu destino acendendo uma lua no seu peito ao descobrir os meninos, "com olhar de lança", brincando no chão da praça, que não é o frevo de Armandinho e Moraes Moreira, diante da sua janela. Debruça-se sobre um espelho, afastando os cansaços e as estrelas que o espionam lá do alto e pede coragem para adormecer, pondo de lado as melopeias da fonte das memórias, que dançam em fila indiana por bosques de espuma. A areia e uma nuvem pequenina fecham os seus olhos, fazendo-o sentir a vertigem do inviolável com o pião ainda girando na dicção imaginada de Jorge Luis Borges, com as asas pesadas, que o leva pelos labirintos onde a música, saída das tocas e becos, camufla, com a natural displicência juvenil, os impulsos vitais. E segue indômito através de uma máquina sonâmbula sem que uma trovoada apague dos seus lábios a tristeza de não poder cantar, o que era também um enternecimento, há muito apagado das suas lembranças. Um dia a sua voz, longa, como um bambu, se acrescentou à já existente inenarrável toada do pião pelas avenidas esburacadas da memória dos mocambos da Ribeira. Agora já não arranca os cabelos porque, ao abandonar o seu casulo, todos o escutam...

(José Carlos Sant Anna)