domingo, 29 de janeiro de 2017

Penumbra



QUANDO ELE APARECEU NAQUELE ERMO DE CIDADE roçando-lhe palavras doces com os lábios colados à ponta da sua orelha e, progressivamente, a língua, a impaciência do sono começou a fustigar a sua vida com uma sede de carícias que não a abandonavam nos seus sonhos. Então, um céu de nuvens verdes cresceu de repente e ela descobriu que poderia sentir o voo dos pássaros em outras árvores. Poderia conhecer outros ventos, outros nevoeiros.
Havia promessas na teia de mistérios da nudez daquele amor que ardia no carvão da sua fogueira. Era pegar ou largar. Ou, então, morrer afogando-se naquela paisagem de trevos, abandonados, vestindo-se de frio, fazia tempo. Paisagem que lhe causava horror. Não sentia o perfume das flores, e a paisagem já não mexia com o seu coração. Ela queria outro destino para a sua vida, queria outros rios. O da sua aldeia já não a satisfazia, embora amasse o de Alberto Caeiro. Sonhava com um rio assim. E tomou a firme decisão de acabar com a sua insônia. Iria encontrar-se, como ele propunha sentado ao pé dela debaixo de estrelas e de luas, como ela era romântica, meu deus, com aquele homem na sua metrópole, na sua cidade grande, como ela sempre imaginou que pudesse acontecer. Tinha guardado o endereço dele dentro do sutiã para não perdê-lo. E o mantinha guardado dentro do peito, em suspiros.
Cantarolava baixinho na inocência daquele céu pardo enquanto arrumava a mala. E não despregava pelo vão da porta os olhos do seu irmão mais velho, sentado no sofá da sala. Tentava adivinhar-lhe miríades de pensamentos que soçobravam em sua cabecinha de adolescente maduro; ele, por sua vez, acompanhava cada movimento que ela fazia, ouvindo o seu mantra, que arranhava as cordas vocais à medida que saltava as notas como uma soprano desalmada, espancando a partitura. Eles se entendiam pelo olhar. Este irmão mais velho sempre fora a fonte do seu caminho. Nunca esqueceria os conselhos, as conversas, as confidências, sob aquela frondosa mangueira nas tardes mornas e nas noites de lua cheia, que enchiam o quintal da casa da família.
Ela, o irmão velho, duas irmãs menores e os pais constituíam o núcleo familiar. Lua e mangueira os adornavam sob o violão do irmão onde as andorinhas sempre podiam entrar sem pedir licença.
Na azáfama de arrumar as malas, quando dizia alguma coisa ou perguntava por alguma peça de roupa, a sua voz denunciava uma sombra breve, de tristeza. Um luto quase imperceptível, que se esbatia, se esvaía porque dentro de si o que havia era a alegria do vento que, no entra e sai pela casa, parecia rir sem motivo, porém tão baixinho quanto à música que ela suspirava.
Segurava as lágrimas olhando cada peça de roupa, fingindo experimentá-la ao exibi-la sobre as suas vestes por cima do corpo, depois dobrava e guardava no fundo da mala. Havia muita coisa para olhar e guardar. Sairia sob o peso das labaredas, mas não voltaria encarquilhada trazendo outro fardo. Só voltaria lá a passeio. Custasse o que custasse. E olhe lá, daquele frio arrancado a fórceps, queria ver-se livre. Por isso, fazia-o sem pressa e, também, porque só embarcaria na madrugada do dia seguinte.
Sabia que era uma viagem para apagar o incêndio que consumia suas entranhas, fechar o abismo que a incomodava tanto. Media cada palavra sem a régua da emoção para conversar com a mãe porque não queria nenhuma complicação para a sua noite sem guia, menos ainda mal-entendidos, as promessas que não se cumpririam, enfim, nunca o disse claramente a sua mãe que não voltaria, mas sabia no seu íntimo que ela desconfiava, ainda que a levasse escondida dentro dos seus olhos. Saíra do seu ventre, ouvira seus primeiros vagidos. Vira-a crescer e aprendera a conhecer seus impulsos, suas fraquezas.
Embora ela fosse muito jovem, ainda não debutara, estava convicta da sua decisão de cortar o cordão umbilical com a família, de andar pelas relvas despenteadas da cidade grande. Dizia para si mesmo que tinha que dar certo, mesmo que aquele homem por quem se sentia apaixonada não tomasse conta dela, ela arrumaria sua vida numa metrópole de qualquer outro modo. Só não venderia o seu corpo por nada desse mundo, não queria dar esse desgosto à sua mãe.
 Depois da comemoração dos seus quinze anos, você vai embora, minha filha! Só faltam duas semanas.  Disse-lhe a mãe com os olhos bem abertos, fixos, porém vagos, abraçando-a fortemente contra o seu peito, porque a pensar no firme desejo de reinventar a vida naquele momento, querendo fazê-la acreditar que ainda era cedo para descobrir os segredos das palavras.
A moça sempre disse que aquela cidade era pequena para ela. Nunca deixou de sonhar, bem sabia. Já se alimentava de palavras emolduradas nas pautas dos seus cadernos escolares, há muito tempo. Levaria bastante alimento que a ajudariam a espairecer suas angústias de mulher, qualquer que fosse a penumbra que a ocultasse.
Enquanto o ônibus avançava pela estrada, ela dormia sem que os sonhos quebrassem a conspiração da noite. Não via a hora de sentir o corpo quente do destino na sua vida. Confiava que o homem viria colhê-la, como a uma flor, ao amanhecer na estação rodoviária.
Agora o motorista pisa com força no pedal dos freios para contornar o viaduto que leva os embarcados na cidade distante à rodoviária. Os minutos que se seguiram foram marcados por muita ansiedade até que o motorista estancou o ônibus no meio-fio, puxou o freio de mão, abriu a porta e postou-se à frente dela, cumprimentando os passageiros à medida que eles desciam carregando as bagagens de mão.
Ela levantou da sua poltrona espreguiçando-se, deu um longo suspiro, acompanhou a fila indiana que se formou no corredor do veículo, espreitou a janela e pensou "apetece-me a aurora para continuar sonhando" e desceu do ônibus com uma sombra no rosto. 
Enquanto aguarda o ajudante do motorista liberar a sua bagagem, apalpa o sutiã para saber se o endereço está bem guardado e, de mãos dadas com as nuvens, ansiosa, sonha intensamente, de olhos bem abertos, esperando, com uma ponta de dúvida, pelo homem que sorveu o mel dos seus grandes lábios. Ninguém sabe quanto tempo será a espera.

                                                              (José Carlos Sant Anna)



9 comentários:

  1. Foi quase num fôlego que li esta sua história, tão bem contada, com uma estética fantástica. Voltei a lê-la para saborear cada frase, cada parágrafo, cada emoção...
    Quanto à menina que, nos seus 15 anos quis arriscar outros voos, digo também: "Ninguém sabe quanto tempo será a espera."...
    Uma boa semana, meu amigo.
    Um beijo.

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  2. sou declaradamente admirador da tua Poesia.
    e atrevo a dizer que, em certo sentido, é ainda poesia que fazes, quando em prosa escreves.

    acompanhar a trama, a minúcia e a delicadeza do teu conto é como sentir o borbulhar de vida (vivida) da tua jovem heroína e de sua espera.

    caloroso abraço, meu amigo

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  3. A delicadeza de uma escrita por demais fluente e envolvente, que nos transporta ao cerne da trama...
    Gostei da história desta jovem, tão real, tão sentida...
    Nunca conseguiria chegar aqui, clicando na foto que me aparece nos seus comentários. Ia sempre parar ao sítio onde tenho deixado os meus...
    Grata pela atenção...
    Abraço

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  4. É... também li num fôlego essa história que se repete tanto na vida real... e com 15 aninhos!! E o que será que aconteceu... Fica para nossa imaginação, assim acabam os contos. Muito Bom, muito bem contado, já se fez essa sua marca.
    Um beijo.
    Uma ótima semana.

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  5. a paixão sobrevive
    de pressas

    [contém 1 beijo]

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  6. De leitura arrebatadora... e imparável!...
    Parabéns pelo seu magnifico texto, José Carlos!
    Ainda que se adivinhe um possível desfecho... foi maravilhoso viver a sede da vida aos 15 anos, através das suas palavras e desta sua personagem...
    Adorei!!!!
    Um grande abraço, José Carlos! Continuação de uma feliz e inspirada semana!
    Ana

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  7. Oi Sant Anna, estamos de volta! Parabéns pelo texto poético tão bem elaborado. É quase um poema em prosa. Grande abraço. Laerte.

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  8. Caro José Carlos,

    A soma de um Poeta inspirado e um excelente Escritor
    resulta nesta obra de arte.
    Maravilhosa e tocante narrativa que me absorveu de
    forma única (estou atropelada pela falta de disponibilidade
    de tempo para leituras e somente hoje aqui no teu
    espaço que acompanho atenta...) e grata por este momento
    de leitura aqui, amigo.
    Sempre admirável a tua literatura de alta qualidade!
    Beijo.

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  9. Encontrei nos comentários o link para aqui chegar.
    Gostei de reler e ouvir o Milton, um dos meus músicos brasileiros de eleição.
    Obrigada pela visita...
    Abraço

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