sábado, 7 de janeiro de 2017

Sob o peso das horas



No meio do cigarro o mundo desanda:
névoas de um querer desorganizado
impõem-se ao meu furtivo coração

E metáforas pesadas acenam
mórbidas – um mar dentro do corpo –
marés sem porto que borbulham

(Nelas creio porque nada me impede
de acreditar em alguma coisa)

E fragmentam-se. 
São ínfimos os escombros.

Por inútil não mordo a maçã.
E recolho resíduos do improvável
às margens da minha escrita,

Inapelável, indiferente ao risco. 


                                (José Carlos Sant Anna)


8 comentários:

  1. José Carlos, meu caro amigo

    permite que te contradiga para dizer que tua escrita não está ao lado, ou fora. do marulhar das marés. e que da "torre de marfim", de onde espreitas o Mundo, saltam tantas vezes (como agora) chispas luminosas que aclaram a urgência de dar sentido aos "infimos escombros" - que somos!

    forte abraço, Poeta

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  2. A metáfora, essa forma imprecisa de pensamento, como lhe chamou Maria Zambrano... O seu poema, tão belo, tem a marca da sua escrita. Gostei imenso.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  3. Olá José Carlos!
    Nada nos impede de acreditar seja no que for porque acreditar é preciso!
    Beijos

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  4. Meu Amigo,

    "Sob o peso das horas", entendo muito bem...
    Mas, a leitura deste teu poema que se inscreve
    na bela qualidade poética, palavras que emanam
    num movimento luminoso do arrumar e desarrumar
    por dentro, com os fragmentos vivos de uma humanidade
    rara e evocativa deste mergulho do "peso das horas"
    na sensibilidade encantadora do eco da Poesia!...
    Somou com o eco da música, ficando nos alicerces
    da alma.
    Muito grata por este momento de leitura aqui, Poeta!
    Beijo.

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  5. Olá, José Carlos, claro que é preciso acreditar em alguma coisa; mesmo que lá no fundo more alguma dúvida, mas é preciso! Caso contrário, a escalada fica difícil... Insuportável.
    Beijo, querido amigo.

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  6. E é sob o peso das horas... que nasce a inspiração... e a determinação em não ceder a tal peso... fazendo as horas dar frutos... como mais este belo trabalho...
    Como sempre, mais um notável momento poético!...
    Abraço! Bom fim de semana!
    Ana

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  7. uma fuga ao improvável, um cigarro
    e a inspiração a brotar das mãos do Poeta
    muito bem!
    beijo
    :)

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  8. Que névoas desanimam o poeta se as palavras lhe vêm ter à palma do papel. Se o poema se derramou luminoso no branco.
    Abraço.

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