quinta-feira, 29 de junho de 2017

Lavoura



essa teia de raízes dos velhos troncos
atravessa 
minha voz meu corpo minha nudez
e, em alguma folha nova, vagarosa, 
esculpe brisa imóvel, pulsação serena, 
antes que tudo sutilmente volte ao pó, 
memória exata da casa aberta, 
quando se encantam no suave pingar 
das horas os meus ouvidos de poeta. 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 20 de junho de 2017

Intercursos

Foto: arquivo pessoal

I.

pelo avesso
o verso veleja veredas

a rota e o chão
das palavras enfunam
os panos de fundo dos dilemas,

a boca do mar
engolfa a fome do poema
e as gaivotas abocanham
no voo este teorema

II

o poema é uma chuva
                                   movediça
que se escreve
para quem não se diz

enunciado
desdobra-se claro-escuro
decompondo
o silêncio da ponta da língua... 

III

do lado de dentro
do fado
o verbo exilado
desafia o olho mágico
na jurisdição
             do seu espaço. 


Só faz sentido:
acordo em sustenido
    dizendo-lhe no ouvido
          dezenas de bemóis.


(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sob as águas buliçosas do sonho



I
O assoalho estremece. Outrora, pedras azuis, clareiras vermelhas e animais noturnos nas nuvens. Não estremecia sob os meus pés. Murmúrios da minha boca de chuva em suas membranas. Subitamente macias. Nada se perde. E tudo se oferece debaixo dessa bruma. No tronco mais silencioso da casa, ela me disse alguma coisa antes que eu tragasse o primeiro cálice de vinho. Àquela altura, pois, já me embriagava sob a tua pele. Acho que foi o teu nome. Mas não! Mas não! Sim, o segredo do teu nome de batismo. Longa viagem. Imprevisíveis acentos.

II
Como se fosse uma fábula sobre coisa nenhuma. Lugar de insônia, iluminando a noite. Mas não me perguntem de onde vem o bulício de vozes. Nada parecido. Algo nebuloso, algo como se as palavras tivessem cor e cabelos, quando à mesa se cogita qualquer coisa, como se no esplendor suave houvesse uma saudade da nascente, ou qualquer outro pacto. E, então, todos se perguntam por que exala um forte cheiro de maçã pela casa, enquanto uma lua redonda entra pela janela deixando que todos vejam os momentos íntimos do casal. A terra molhada. A boca na maçã, tomates intocados. Densidade. Leveza. Em torno das palavras o rumor porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão.  

III
O assoalho estremece outra vez. Agora sem esconder sua memória milenar, enquanto flutuam, resvalam, resplandecem dispersos os passos dos alheios coadjuvantes que caminham pela casa. E quanta elegância discreta nos seus charmosos aventais. Ágil, o gato pula a janela. Tudo que do amor se diga: a água que me falta, o olhar cúmplice. Esta que me visita, este que a deseja, e a nudez do silêncio, e a nudez do corpo, e nos cálices o rumor da água, e do vinho, e o fogo de que são feitos os homens. E o desejo de inventá-la alimentando essa chama clara. E que não cessa de levitar. 

IV
A música sobe redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara porque as veias do tempo, sedentárias, latejam O corpo é içado para o alto, adoraria apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu pensamento sem que eu o saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar. Essa esperança convicta e a certeza do amanhecer. As constelações verbais solapando as pedras obsequiosas. De que somos feitos agora?

V
A pensar. Os neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios entrançados nos fios loiros dos cabelos do ventre da menina. Gotejam dos meus dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo de partilhar com ela os movimentos da dança. 

VI
Vai alta a música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que estremece. Suave ondulação. Minuciosa. Música em lâminas finas rasgando o assoalho, complicando este mistério tão frágil.

VII
Há qualquer coisa de etéreo no sorriso da menina despertando a madrugada por dentro da pele. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no corpo esguio e sedutor por onde entra a minha pena. Cada vez mais sensíveis, mãos e olhar se repetem. E resplandecem. Sopro transparente, a água ainda me falta neste labirinto. Uma voz prolonga a melodia e a doçura de não haver outra sombra por dentro do fulgor.

VIII
O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem nada que me impeça o voo, é uma imagem recôndita dessa presença que rumoreja como o grito de um náufrago. Ela tem uma aragem nos pés sob as sandálias que voam para o chão desnudo. Vou gozando o instante com a boca ressequida, enchendo-me do sonho com a luz que me interroga.

IX
É uma coisa tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço, aguardando a trovoada que desaba inundando o seu corpo. O melhor de mim. A tentação ainda latente. Me afagas e, também, derrete meu chumbo para alcançar a ponte de estrelas...  

X.
Soberba água, fogo consumido. 

(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Canção

Foto arquivo pessoal

Se os teus lábios úmidos
aceitassem o meu outono

que me açula e se ergue
entre musgos e lamparinas

eu dançaria um tango
com o teu corpo desejado

aberto qual rosa fascinada
em límpida harmonia

sem ninguém para nos dizer
como o sol se amainaria

haurindo o chão da vida
com volúpia e alegria! 

(José Carlos Sant Anna)