sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beatriz - Parte um



ESFREGO OS OLHOS PARA ACOSTUMAR-ME à escuridão do quarto fechado pelo blackout e cortinas de algodão; alongo o corpo como se eu fosse um atleta e aguardo um pouco, sem esfriar o sangue, para levantar-me. É o tempo que eu preciso para que os meus olhos se acostumem à escuridão e os meus músculos, nas águas que ignoram o céu aberto, obedeçam ao meu cérebro. Faço isso sem remorso algum ou, então, porque não me resta outra alternativa, pois, naquele momento, eu sou ali um corpo submetido às minhas necessidades fisiológicas. Agora, por favor, – porque sei o quanto o leitor é curioso –, não me pergunte o que faço a essa hora da madrugada na varanda do meu apartamento porque eu não saberia dar-lhe uma resposta convincente. Ou não desejaria fazê-lo. Se isto não lhe basta, meu caro leitor, digo-lhe apenas que tenho os pés no chão. Ah! Me rendo diante da sua insistência! Eis tudo. Não me sufoque! O que posso dizer-lhe é que me levanto voluntariamente, como um corpo que nunca faltou à palavra dada. Parte de mim. Simplesmente um corpo. Não, é melhor que o diga compulsoriamente. Por força da idade mais avançada. Faço isso habitualmente para desobstruir a bexiga, depois, já mais leve, não quis voltar à cela como um condenado, ou talvez levado por alguma premonição, desaguei, tão certo quanto a morte, na varanda, com a mão em concha, no ouvido, como quem escuta. Embora não estivesse resolvido inteiramente o meu sono, ainda havia um naco dele perdido, decido, então, aguardar, embalado por algum sentimento, a manhã, leve, pousar na minha varanda. Primeiro, fixo o olhar nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas alinhadas e adormecidas como se estivessem numa clave de sol, mas não as encontro. Estavam inteiramente desnudos os fios. Logo, imagino-as em outra pauta, mais longínqua, e penso, olhando para o céu, "quanto mundo abissal nos confins do infinito se esconde dos nossos olhares", tendo como testemunha esta lua cúmplice, sôfrega, brilhante, que recolhe tudo que foi de ontem, enquanto outras pequenas luas iluminam a praça que circunda o prédio onde eu moro. Não tenho dúvidas, diante daquela visitação pública, em acreditar que, em cada um de nós, mora um sobrevivente, também não tenho dúvidas de que por mais que a ciência quebre os vidros da janela, ela ainda tem um longo caminho pela frente. E assim conciliado com os céus e o olhar fixo no solo áspero da praça, começo a ouvir vozes distantes subindo a ladeira íngreme que as leva à praça. São duas vozes femininas que se alternam em pequenos intervalos. Uma, mais áspera; e a outra, mais modulada, mais conciliadora. Esfrego os olhos novamente para ter a certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, pois, diga-se de passagem, sou capaz de apostar que há um sujeito encarapitado numa árvore da praça. Fixo o olhar e cravo na mosca: “Pô, meu, aquele é o Nelson! O Nelson Rodrigues, 'cuspido e escarrado'". O mesmo que disse que "cego em futebol é o que só vê a bola". Não acredito. O velho Nelson, com ar bonachão, traja uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista que, sob os ossos da palavra, impunha respeito. Mas lá está ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando primeiro a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz", depois me assaltou uma dúvida: o que mais ele faria ali? Posso brincar com os meus leitores, pedindo que eles escrevam cartas para a redação dizendo-me o que ele acha que Nelson Rodrigues estaria fazendo ali, além de comodamente exibir o seu coração com as cores do seu velho FLU. Ah! Não esqueçam – isto pode ajudar e muito – que ele carregava em suas entranhas a alma do repórter. O excelente repórter que sempre foi. Também não esqueçam da coluna, publicada às segundas-feiras, no jornal O Globo, cujo mote era o personagem que emergia como herói na rodada do final de semana. "Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer.../... Não esqueça..." Aí, já é o admirável Paulinho da Viola, de Sinal Fechado, e tantas canções e sambas inesquecíveis, como são inesquecíveis as crônicas do Nelson. Mas eu volto para contar-lhe o resto dessa história...

(José Carlos Sant Anna)



9 comentários:

  1. Olá! Gostei da sua escrita, do seu modo de escrever. :)

    Grata pela sua visita.
    Abraço.

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  2. Uma narrativa excelente! Este registo que você usa para contar os episódios deixa-me sempre encantada.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  3. Um escrita cuidada, e trata minuciosamente todos os detalhes...fico sempre encantada, vamos aguardar a continuação...
    uma boa semana.
    beijinhos
    :)

    PS:Muito obrigada pelas suas visitas.

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  4. Você é bem minucioso, não deixa escapar detalhes!
    "Primeiro, fixo o olhar nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas alinhadas..."
    É, e o mesmo velho Nelson que não saía quase do seu bairro, que odiava viajar e não viajava...
    E também acredito que em cada um de nós mora um sobrevivente!
    Na mosca!!!rss
    Tá bom, José Carlos, aguardo a continuação!!
    Uma ótima semana pra você.

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  5. Adoro um conto que me leva a uma varanda assim no meio da madrugada e nem eu mesma sei a razão rs Muito boa leitura JCarlos E ja dizem que 'imaginação é mais importante que conhecimento' e é,haja visto a sua, que nos leva a ler de uma tacada só e fica a espera que também a nós algum Nelson apareça.
    Gostei muito.
    Um abraço forte.

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  6. Depois de ler uma excelente narrativa como esta, fico ainda mais desperto para o resto da história.
    José Carlos, um bom fim de semana.
    Abraço.

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  7. José Carlos
    vim ver se tinha mais, mas, como não tem, deixo os meus votos de um
    bom fim de semana.
    beijinhos
    :)

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  8. Uma narrativa fantástica, de uma imensa riqueza descritiva, na qual o seu principal personagem... protagonista de uma noite de insónia... se deixa ouvir por dentro de uma forma excepcional... até à alma!...
    Excelente trabalho, com a qualidade a que já nos habituou!
    Gostei imenso! Beijinho
    Ana

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  9. Boa noite José Carlos!
    Muito feliz com sua presença!
    Vim pelo começo pra entender a história.
    Adorei a forma que construiu essa história. A madrugada é um momento onde a imaginação faz festa, detê-la é quase impossível...
    Você escolheu maravilhosamente o vídeo, Valentina Lisitsa toca muito... É uma pianista que vale ouro.
    Vou em frente continuar lendo a história.
    Abraço e boa semana!

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