quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A ótica de Carlos





Um espadachim. Era como ele estava se sentindo depois da breve escaramuça na antessala da academia de ginástica com um oponente. "Pode isso, Arnaldo?". Como o mundo é o que corre lá fora, Carlos, para não ficar só, abandonou a esteira em que queimava uma gordurinha, e pernas, para que eu as quero?
Este era o caminho para entender as razões do que estava àquela altura acontecendo consigo mesmo. Ou como um sim inesperado que a vida parecia oferecer-lhe, caminhava se interrogando, intrigado, por que, depois que deixou a ótica no final da tarde do último sábado, não parou de pensar na consultora que o atendera? Que bela morena! Morenaço! E como ela não revelara, nem um pouco, uma alma pequena, achou que valeria a pena o derrame de neurônios que se perdia no rio da sua libido. Tudo estava em ordem em sua vida até aquele momento, mas, de repente, achou que faltava ela no seu caminho.
Logo depois que deixou a loja, Carlos, sereno, seguiu para o Porto da Barra para montar guarda. Lá, tomando um chope aguado, cheirando a maresia, e com o cocô de cachorro impregnado nas calçadas exalando pelas portas a dentro dos bares, imaginou que talvez ele não soubesse que o centro do mundo é um ponto escuro, que não se tange assim como não se quer nada ou com poemas que se digam inconfessáveis. Ou mesmo não soubesse ainda que o segredo da liberdade é saber esquecer antes que ela se torne um amor cruel, tangida por um condutor de bondes.
Sôfrego, sem que as sombras o iludissem, ficou murmurando depois algo contra si mesmo. E logo, enviesadamente, por saber que o mundo não é mundo, mergulhou num silêncio atonal recolhendo este segredo que não sabia quando desfiaria e para quem o desfiaria, e que, se possível, ainda desfiaria este rosário naquela noite cujos primeiros acordes já se fazia ouvir com o pôr-do-sol.
Saiu da loja de braços dados com uma novela e a tranquilidade de sua alma acreditando que tinha feito o melhor ao trocar também a armação dos óculos. E começou ali mesmo a reconstituir o passo a passo da sua conversa com a consultora de um pouco menos de duas horas, mas, ao que parece, ele tinha deixado escrito em sua pele seja bem-vinda. E dizia para si mesmo "Venha, mas venha leve para que eu não acabe os meus dias em silêncio, porque a primeira impressão não é a que fica. Isto é um engodo. Venha, sem pressa e com vontade de sonhar, passear pelas ruas de mim mesmo, sem gatos a espreitá-la. Venha que, quando a festa estiver no ápice, eu reparto as cordas da minha lira com você". 
Lembrou-se que, ao assomar à porta, ela se levantou da cadeira e se dirigiu à entrada da loja encurtando a distância que a separava dele e, sem afastar o olhar um milímetro, ela lhe estendeu as mãos, perguntando-lhe:
– Posso ajudá-lo? 
– Queria falar com Cristina?
– É aquela ali. Ela está ocupada no momento – disse-lhe apontando para uma moça de cabelos compridos, que mostrava na vitrine algumas armações para um cliente que entrara na loja um pouco antes de Carlos.
– E o Procópio?
– É o gerente da loja. É aquele senhor, na outra extremidade, atendendo aquelas duas moças – disse-lhe, mostrando um senhor parrudinho de cabelos grisalhos, de mais ou menos 50 anos, que abriu um sorriso carregado de simpatia da sua mesa de trabalho, quando percebeu que Carlos estava ali para falar com ele.
– Venha, sente-se aqui – disse-lhe a consultora, puxando-o pelo braço com um jeito sedutor. – Vamos conversar enquanto esperamos Procópio fechar o contrato com as duas moças – acrescentou.
– Posso adiantar-lhe o que me traz aqui, se você quiser! Como é mesmo o seu nome?
– Ana Flávia! Mas pode me chamar de Ana!
– Com tanta simpatia da sua parte, acho que não preciso esperar por Procópio – disse-lhe piscando um olho e com o outro fixava a sombra bem delineada no seu rosto.
Ela fez de conta que não entendeu o seu gesto, mas o recolheu com um sorriso ambíguo.
– Como o senhor vem recomendado, podemos ir conversando, sim, mesmo sabendo que a palavra final será dada pelo Procópio. Ele fará o que não poderei fazê-lo!
– Tenho cá minhas dúvidas  disse-lhe tocando levemente sua mão.
Ele meteu a mão no bolso apanhando a receita dos óculos, colocando-a sobre a mesa de trabalho de Ana Flávia. Ela a tomou em suas mãos para conferir a quanto ia o astigmatismo de Carlos, que se preocupava em observar os detalhes do seu rosto, da sua pele. Até que ela se levantou para apanhar as armações, então, ele pode acompanhar o movimento ritmado das suas ancas. Suspirou duas vezes e passou a mão no rosto para limpar o suor que deixava nele um brilho excessivo.
O estilo pode muitas vezes ser um fake na vida de cada um. E, por favor, nada de truques porque a vida não aceita rasuras no seu percurso infindável, é o que ele diz a si mesmo antes de voltar a olhar a fração de mar que se descortinava na solidão da sua mesa e, em seguida, chamou o garçom e pediu mais um chope.
Depois que ele se afastou, Carlos se lembrou rapidamente do garçom do Café com Letras, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, quando ele pegou a sua tulipa ainda cheia de chope e fingiu que estava levando-a de volta para a cozinha.  Ao perceber a sua reação, disse-lhe com um sorriso largo de domador:
– Me acompanhe. Já consegui uma mesa lá dentro. Vai começar a sessão de jazz. E o senhor só vai me agradecer esta gentileza porque são músicos de uma elegância que as notas parecem em êxtase. – E sorriu.
Carlos não se dá por vencido e volta a se perguntar por que não parou de pensar na consultora. Ouve os acordes iniciais do concerto e os confunde com a noite de jazz do Café com Letras e outro baile interminável mais distante no tempo. E como se a consultora estivesse perto diz-lhe que queria lhe mostrar sua outra face, a mais sisuda, e apagar a paródica revelada no sábado à tarde. 
Às dez da noite, Carlos, depois de cinco canecas de chope, era um espantalho de homem, subiu para o restaurante porque ela não apareceu para jantar como ficara tacitamente combinado. Adeus, pressurosos ventos das sonhadas manhãs ensolaradas.
Pouco sabemos dos rios que nos afogam. Ainda hoje Carlos não deixa de pensar na consultora depois do encontro na loja na tarde daquele sábado. Foi um sobrinho que pegou seus óculos novos.  

(José Carlos Sant Anna) 









7 comentários:

  1. "Pouco sabemos dos rios que nos afogam". É verdade, amigo. Nada acontece por acaso e esse Carlos ainda vai encontrar na consultora as asas que lhe desenharão o sorriso...
    Leio sempre os seus textos com imenso gosto.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  2. Caro José Carlos, "Odeon", de Ernesto Nazareth, interpretado por esses dois craques, Paulinho Nogueira e Toquinho, é uma das preciosidades de nossa música. É sempre bom divulgar. É sempre bom ouvir. Também é uma excelente introdução para este seu ótimo conto, "A ótica de Carlos", uma história da qual gostei, que tem diálogos como o que segue (transcrevo):

    " – Me acompanhe. Já consegui uma mesa lá dentro. Vai começar a sessão de jazz. E o senhor só vai me agradecer esta gentileza porque são músicos de uma elegância que as notas parecem em êxtase. – E sorriu."

    Parabéns, amigo.
    Grande abraço.
    Pedro

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  3. O que mais gosto dos seus textos, é a maneira sublime que encontra para nos dar todos os detalhes que se encaixam tão bem nas palavras que dedilha.
    Gostei, mas o fim deixou-me a sorrir...Carlos nem foi levantar os óculos novos...
    beijinhos
    :)

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  4. As Anas sempre fazem estrago na vida de um homem, não é mesmo José Carlos? rsrs
    Como diz a musica: unforgettable in every way...
    Beijos

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  5. Há encontros que ficam marcados nas lembranças e arrepiam a pele. E é isso: "Pouco sabemos dos rios que nos afogam".
    Gosto muito dos seus textos.
    Bj

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  6. Traz mais uma bela narrativa e tem sempre gatilho para a imaginação.

    Um ponto negro é um buraco que devora ou a fonte de vida? Mete-se-lhe o pê, na ótica, e fica óptima.
    "Pouco sabemos da vida [...]", não é? Nunca se sabe...
    Abraço.

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  7. Uma riqueza de detalhes incrível!... Que nos permite viver a personagem, enquanto se vai desenrolando a acção... e a falta dela... Carlos devia ter ido buscar os óculos... e procurado saber porque ela não foi... olhos nos olhos... afinal... não haveria mais nada a perder...
    Mais um texto belíssimo, que é um verdadeiro prazer descobrir e apreciar, José Carlos!
    Um grande abraço!
    Ana

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